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Receituário de Poesia ou Sintagma da Paixão pela Palavra

I
DA PALAVRA
 Faca e agulha e lâmina e navalha, a palavra é vertigem na beira do abismo.
Necessário devassá-la
como pés descalços pisam pedras, pois a palavra é inexata como as paixões sem freio e busca ser precisa como as fases da lua.

Debruar o tronco dos vocábulos com a simplicidade de um pavão sem plumas, pois a geografia do sentido é um percurso de labirintos onde há serpentes à espreita.
Submeter o significado ao toque sutil da leitura em braile num corpo sedento de sensações.
Palavra: Febre encantada no sabor da verve.

II
DA PAIXÃO

Ardil e arapuca e armadilha e cilada, a paixão é miragem aos pés do vulcão.
Necessário arrefecê-la como homens fortes domam feras, pois a paixão é predadora como os corsários e precisa ser generosa como os anjos.
Singrar o dorso dos impulsos com o cuidado de um equilibrista cego, pois a ciência do sentimento é um trajeto de trapézios onde não há redes de proteção.
Silenciar o ímpeto
ao truque orgásmico do gesto íntimo com a naturalidade de um eunuco.

Paixão: Fogo atilado no tremor da vida.

III
DA POESIA

Teia e trama e trilha e tessitura, a poesia é drenagem no ventre da alma.
Necessário decifrá-la como dedos suaves tocam lábios, pois a poesia é enigmática como as sombras e urge ser despojada como as brisas.
Degustar a pele das imagens com a soberania de um centauro augusto, pois a filosofia da emoção é um roteiro de mosaicos
onde há desníveis à espera.
Sacrificar o símbolo à tecla tesa do ardor semântico num verso íntegro de vibrações.
Poesia: Feto gerado no bolor da virgem.


Maria Elizabeth Candio (Refeito em 19/01/2001)